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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Fred e Vivian (Conto)


Levei muito tempo para refletir acerca dos rumos que minha vida havia tomado. Não posso dizer que sempre me considerei um inútil, o que não quer dizer que eu seja um completo imprestável. Acontece que quando você se apaixona, como é o meu caso, você quer fazer o possível para destacar suas qualidades e virtudes, e tentar esconder o que você tem de pior, e com certeza você tem algo nesse sentido. Por mais paradoxal que possa parecer, posso me definir como um zero a esquerda com virtudes. Sem grandes feitos ou glórias, meu maior êxito foi o meu amor.

Éramos diferentes em todos os sentidos, mas não o que nós éramos. Essa era a nossa natureza. Vivian era pura, mimada e vivia, praticamente, em uma redoma de vidro. Quanto a mim, eu não passava de um reles vagabundo, mas que possuía o mundo, a liberdade e a capacidade de amar sem fronteiras. Nosso único elo era uma fenda na parede dos fundos de sua casa, a qual dava para um quintal, onde, após pular uma mureta, eu conseguia ter acesso.

Naquela noite chovia, e eu estava encharcado até os ossos. Eu tremia de frio, mas a perspectiva de sentir o beijo de Vivian através da fenda e ouvi-la dizer que me amava, supria tais mazelas. Após atravessar o quintal e, sorrateiramente, chegar ao muro, percebi que ela já me esperava. Ao nosso modo, não dissemos nada um ao outro. Através da fenda, pude sentir seu beijo, sua língua indo de encontro a minha. Nos beijamos com se nossa existência dependesse da nossa capacidade de perpetrar o nosso amor. Se fosse realmente isso, teríamos a vida eterna.

- Vamos fugir, amor?! – propus a Vivian, a mercê do único sentimento que nada tinha a ver com a minha sobrevivência nas ruas.

- Como, querido? Eu estou presa, e sem alternativas.

- Estou enlouquecendo, Vivian. Não consigo ficar mais um só segundo sem você. Isso vai acabar me matando. Quero a felicidade, e quero ter você ao meu lado quando isso acontecer.

- Não pensaria duas vezes, Fred, se eu tivesse uma única chance de poder fazer você alcançá-la.

- Amor, vamos fazer o seguinte: eu não vou poder quebrar a parede sem levantar suspeitas, então, minha única alternativa, vai ser cavar um buraco sob o solo. Sei como fazer isto. O chão do seu quintal é feito de cimento e, até eu quebrá-lo e chegar ao solo para cavar o túnel, vai demorar um pouco, mas eu vou fazer. Como é o chão aí do seu lado?

- É cerâmica, amor. Mas... Você acha que isso vai dar certo, Fred?

- Claro! Já pensei em tudo, querida. Quando terminar o trabalho, eu só vou precisar remover quadro pedras, o suficiente para que você possa passar pelo túnel.

Por sete madrugadas seguidas, ininterruptamente, propus-me a trabalhar com dedicação e afinco. Quando me sentia desmotivado, eu imaginava a noite de amor que eu teria com Vivian, nossa felicidade, nossos filhos... Então eu cavava até meus membros calejarem e sangrarem. Eu era de Viviam e Vivian era minha. Nós nos pertencíamos como se fossemos um só.

Ao fim do meu trabalho, percebi que eram duas horas de uma fria e enluarada madrugada. Neste instante, Vivian pôde, finalmente, de forma bastante sorrateira, atravessar o túnel. Quando nos encontramos, manifestamos, de forma bastante silenciosa, nossa felicidade e alegria em ter um ao outro. Nos beijamos e seguimos nosso rumo, onde nenhum muro, nem ninguém poderiam subjugar o meu amor por Vivian, pois aquilo era posse e estava aquém do que eu sentia pela minha grande paixão.

Eu já havia preparado nosso ninho de amor naquela mesma noite. Eu havia conseguido tudo o que ela gostava de comer e beber, e pus junto a um lençol estendido sobre uma deserta e orvalhada campina verdejante, sob a copa de uma macieira. Quando chegamos, acendi quatro velas aromáticas em cada canto do lençol e a convidei a deitar.

Nos amamos como eu jamais havia amado alguém. Não gosto dessas coisas performáticas, mas, tão somente, dar um sentido ao sexo: amando. Após duas horas, estávamos extasiados e resolvemos descansar. A acomodei junto a meu peito e, juntos, adormecemos... Felizes e sorrindo.

Despertei assustado. Vivian debatia-se, desesperada, junto a meu peito. Em seus olhos havia dor e morte, e eu me vi amedrontado diante da minha impotência em não encontrar uma razão ou motivo para aquilo e, além de tudo, a possibilidade de eu perder minha Vivian encheram meu coração de terror.

Após perceber que meu corpo estava tomado pelo sangue de Vivian, divisei o horizonte, e vi o que havia provocado tanta dor em minha amada. Uma enorme cascavel fugia, sorrateira, para longe. Eu não podia deixar aquilo barato. Velozmente, corri em direção à serpente e, com minhas próprias forças, a abati possuído por uma ira a qual eu desconhecia possuir. Eu a trucidei.

Corri em direção à Vivian e, ao tomá-la para junto de mim, notei que ela estava morta. Tomado pelo desespero, chorei, como nunca antes havia chorado. Minhas lágrimas caiam sobre a face de Vivian, mas, mesmo assim, encontrei forças para dar um último beijo nos lábios eternamente adormecidos daquela que me fez enxergar o mundo com outros olhos, sem rancor no coração.

- Amor...

Assustado, levantei minha face e notei os olhos de Vivian ainda ensonados, como se ela tivesse acabado de acordar de um sono profundo.

- Por que você está chorando? – continuou Vivian.

- Achei que havia te perdido, querida.

- Eu só estava dormindo, amor.

Novamente, beijei Vivian e, ao olhar para seu lindo corpo, percebi que não havia mais nenhuma gota de sangue e, onde a cobra havia mordido, não havia mais ferimento algum. Ainda chorando, eu a abracei, mas só que desta vez eu estava feliz, incrivelmente feliz.

Bem... Antes de terminar minha história, tenho que dizer que, talvez diante da sua perplexidade e desapontamento, eu não passo de um vira lata, e minha amada Vivian é uma legitima Basset. Essa é a nossa história, a qual durou longos e apaixonantes anos. Vivian me deu lindos filhos, os quais foram criados com todo o amor que Vivian havia me ensinado a sentir. Por fim, nossa história terminou quando a mais inexorável certeza de qualquer existência não permitiu mais nenhuma única prorrogação. Mas, até lá, havíamos vivido intensamente, como se cada dia de nossas vidas fosse o último.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O rouxinol (conto)


É preciso estudar. Para ser alguém na vida, é preciso estudar. Ora, os pais de Jaqueline sempre disseram isso a ela. Porém, eles esqueceram de dizer que um cemitério não era o lugar adequado para se fazer isso. Não era preciso. Jaqueline sabia muito bem que devia estar em uma escola àquela nublada e cinzenta hora da tarde. O que seus pais não a diriam se a vissem, solitária, prostrada de joelhos defronte a um sepulcro?

Com apenas dez anos de idade, Jaqueline já tinha motivos mais que suficientes para estar naquele lugar. Ela havia se apaixonado. Perdidamente. Quantas noites ela não dormiu com a foto de seu príncipe encantado colado junto a seu peito, enquanto fazia planos de subirem ao altar ou viverem juntos em um lindo castelo? Com seu polegar direito ela secou duas obstinadas lágrimas que desciam de seus olhinhos. Ela deslizou os dedos de sua mão sobre o nome e o epitáfio de seu amado. Sempre vou te amar, meu amor! Não importa o que aconteça. Eu nunca vou te esquecer.

Jaqueline depositou uma rosa e um jacinto, presas por um laço feito com uma fita de seda branca, sobre o túmulo de David. Tudo o que ele fazia era por ela. Para ela. Ela era o seu amor. David era uma criança completamente desprovida de qualquer interesse que não significasse a felicidade de sua garota. Nem mesmo sua própria vida ele se permitiu preservar, apenas para que a dela se perpetuasse. Por ela. Para ela. Tudo. Até sua própria vida.

Foi tudo muito rápido. Fim de aula. Mãozinhas dadas. Planos. Mais planos. Casamento. Filhos. Trabalho. Eles eram apenas crianças. Precoces, mas imaturas. Ele a deixaria em casa, a envolvendo com o calor de seus braços, dizendo sempre, repetidas e incansáveis vezes, que a amava. David queria se certificar de que ela, nem por um único momento, duvidasse do que ele estava falando. Antes, uma passada na sorveteria. Uma banana split para ela e um sundae para ele. David pagaria. No caminho, um canteiro de obras. Construção de um edifício de alto luxo. Um andaime está caindo na vertical em direção à Jaqueline. Puro aço. Cem metros de altura. David olha para o alto. Ele só tem algumas frações de segundo. Ela está sorridente e feliz, alheia a tudo. Ele é tomado por um desespero e um medo inumanos. Seu olhar traduz isso. Ele segura as mão dela e as repele, em uma tentativa de impulsionar seu corpo para longe. Depois, há dor, muita, muita dor. Ele grita. Depois, tudo escurece, como o termino de um lindo espetáculo que ainda não havia chegado ao fim.

Não foi o canto dos pássaros, empoleirados em diversas árvores dispostas em meio a tantas sepulturas, que, momentaneamente, despertou Jaqueline de seus pensamentos. Foi, sim, um pássaro, mas não aqueles pássaros. Era um rouxinol. Ele pousou sobre a sepultura de David e fitou Jaqueline, com bastante intimidade para um pássaro. Ele cantou, doce e suavemente para ela. Como era belo o canto do rouxinol. Jaqueline amorteceu a saudade de seu amor com a nostálgica cantoria daquele simpático pássaro.

O rouxinol virou sua cabeça umas duas ou três vezes para a direita, pedindo que ela o seguisse. O rouxinol abriu suas lindas asas acastanhadas e levantou vôo, pairando, por um breve instante, diante dos olhos dela, antes de indicar o caminho a ser seguido.

Jaqueline seguiu por uma alameda arbórea com jazigos e sepulturas por ambos os lados até que o rouxinol pousou sobre uma linda placa de mármore. Ela se aproximou do pássaro e ajoelhou-se até onde ele estava. Ela viu a placa e sua vista escureceu. Um mal súbito. Um desagradável prenúncio de uma síncope. Estava tudo lá. Cada letra. Cada algarismo. Nome, epitáfio, data de nascimento e data de falecimento. Não havia a menor possibilidade de ela está equivocada. Ela estava diante de sua própria sepultura. Uma gentil e compassiva mão pousou sobre o seu ombro. Assustada, ela virou sua cabeça e olhou para o alto.

- Eu não consegui, amor! – disse David, com lágrimas nos olhos, enquanto o rouxinol pousava em seu ombro direito.

- David!?

- Oi, querida.

Jaqueline sentiu suas pernas fraquejarem. Havia medo e pânico em seus olhos, mas o súbito despertar daquele que foi sua grande paixão a havia relegado a um assombroso impasse.

- O que está acontecendo, amor? Estou com medo.

David abaixou-se até onde Jaqueline estava e, com seu polegar e seu indicador, ergueu seu queixo e olhou bem no fundo dos seus olhos, antes de beijar seus lábios. David notou que eles continuavam doces, como no dia que ele a beijou pela primeira vez.

- Não há o que temer, meu anjo. Agora estamos juntos. Para sempre.

- Eu estou morta?

- Não! Nós estamos vivos como jamais estivemos. Eu posso sentir o seu beijo e suas mãos em meu rosto. Se estivéssemos mortos, isso não seria possível.

- Para onde nós vamos?

- Embora.

- Para onde?

- Um lugar lindo, meu amor, onde tudo que sonhamos quando estávamos juntos poderá se tornar realidade.

Jaqueline envolveu David com seus braços, enquanto o rouxinol ainda cantava em seu ombro. Com a cabeça encostada junto ao peito dele, ela chorou em parte por uma inexplicável tristeza e outra pela felicidade de ter seu amado companheiro de volta e, dessa vez, para sempre...

David levantou-se e, carinhosamente, ergueu Jaqueline para junto de si, ainda evolvendo-a com seus braços. Ele tomou suas mãos para junto das suas, como da última vez em que estiveram juntos e saiu caminhando com ela.

O canto do rouxinol envolveu o ar, até que uma linda e reconfortante luz branca envolveu David e Jaqueline, conduzindo-os para um lugar onde pudessem desfrutar do único sentimento que eles, mutuamente, se devotavam: o amor, o mais sincero amor.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A menina e o vira-lata (conto)


Nuvens assomavam-se em uma fria e triste madrugada, onde escassas estrelas brilhavam junto a uma apática Lua. No entanto, nada era comparável a dor descortinada nos meigos e tristonhos olhinhos de uma linda garotinha que, junto com seu cãozinho vira-lata, vivia sob uma marquise de um decrépito e abandonado edifício.

A garotinha estava terrivelmente machucada, pois, naquela mesma noite, quando saiu para buscar comida para ela e seu cãozinho, tudo o que ela encontrou foi a maldade em sua crua e mais repulsiva forma.

Ela pôs um puído e esfarrapado paninho entre suas pernas, pois lá era o local que mais sangrava. Uns três ou quatro dentes da sua boca estavam quebrados, mas o que doía mesmo era o profundo corte em sua gengiva, de onde vertia um salivado e viscoso sangue vermelho vivo. Seu amado cãozinho estendeu suas patinhas sobre suas perninhas e lambeu seu braço, o qual havia sido atingido por um tiro de raspão.

O cãozinho, cujo nome era Apolo, chorou de tristeza e vergonha por não ter conseguido proteger sua guardiã e companheira. Das duas pessoas que o haviam devotado o sincero e desinteressado amor por tantos e tantos anos, ela era a única que ainda lhe restava. A garotinha sabia que o cãozinho não tinha culpa de absolutamente nada, mas ele não era capaz de entender aquilo, ou talvez não se achasse no direito de poder se dar ao luxo de fazê-lo.

No instante em que a garotinha pousou sua pequena e raquítica mãozinha sobre a cabeça de Apolo, afagando-a com carinho, o Céu brilhou com uma luminescência incrivelmente extasiaste e hipnótica, e o barulho que se ouviu em seguida faria o mais enfurecido relâmpago parecer uma suave melodia. Depois que isso tudo aconteceu, tudo o que era matéria e que estava ao redor da menininha havia simplesmente desaparecido, a exceção dela própria e de seu cãozinho.

Contrastando com a brancura envolvente, surgiu, lá no alto, uma dourada e brilhante esfera que, a media que se aproximava da garotinha e de seu cãozinho, os enchia de um reconfortante calor. Quando a esfera pousou diante deles, ela, aos poucos, foi adquirindo uma forma aparentemente humana, pois, na verdade a forma que a esfera adquiriu era angelical.

Apolo correu para o anjo e pulou em seus braços, enchendo sua face de afetuosas e babadas lambidelas, enquanto seu rabo balançava de um lado a outro, como as paletas do pára-brisa de um automóvel. O cãozinho vira-lata jamais poderia estar enganado. Sim, sem dúvida alguma, era ele que estava ali bem diante se seus perspicazes olhos caninos. O anjo tomou Apolo nos braços e dirigiu-se à garotinha.

- Amor?

- Amor!? Você me conhece?

- Acho que além de Deus, eu fui a única pessoa que a conheceu e amou mais que tudo no mundo.

- Mas...

- Eu sei. Você nunca me viu, não é isso que você está pensando?

- É que eu não estou lhe reconhecendo.

- E nem podia. Você ainda era muito pequenininha quando aconteceu. Nós só tínhamos um ao outro, além de Apolo para nos alegrar, mas minha hora havia chegado e eu tive que partir.

- Você...

A pequena garotinha, muito forçosamente, reavivou sua memória e, como cartas embaralhadas, alguns tristes acontecimentos vieram à tona em sua memória.

- Sim...

- Foi atropelado?

- Fui, minha linda.

- Papai?

- Oi, meu amor.

A garotinha correu aos braços de seu pai e, embora ainda estivesse machucada, não se importou nem um pouco, pois tudo o que ela queria era abraçar e enchê-lo de beijos, e dizer que o amava e como ele havia feito falta todo aquele tempo.

- Você vai ficar comigo?

- Eu preciso ir meu amor, mas não esqueça que um dia nós estaremos todos juntos novamente: Eu, você e Apolo.

A menina deitou sua cabecinha no ombro do seu pai e chorou de tristeza, pois sabia que não teria mais sua companhia.

- Amor...

- Hummm

- Eu vou falar com Deus e te prometo, pela glória da eternidade, que estaremos juntos muito, muito em breve.

- Isso é injusto. Eu não tenho escolhas.

- Não pense assim, princesa – disse o pai da menina. – Não se esqueça que eu sempre vou te amar e sempre estarei contigo, esteja você onde estiver?

- Também te amo, pai.

- Agora, precisamos dar um jeito nesses machucados. Depois eu vou dar uma lição em quem fez isso com você. Venha, deite em meu ombro e relaxe.

A menina sentiu a mão de seu pai carinhosamente afagando sua cabeça. Apolo, que ainda estava no outro braço do anjo, estendeu sua patinha sobre a perna da menina, e lá também repousou.

As longas asas do anjo envolveram a menina e seu vira-lata fazendo com que eles resvalassem para um doce e entorpecente sono, onde as cores do paraíso espocavam em seus sonhos como a mais inebriante e satisfatória recompensa.

* * *

A menina e Apolo estavam abraçados e ainda adormecidos, deitados sob a marquise do edifício abandonado. Quando acordassem, que grata surpresa eles não teriam! Além da felicidade de terem sonhado com o anjo que já esteve tão presente na vida deles, a menina perceberia que seu corpo não mais padecia em dor e aflição, e a lembrança do mal havia sido irremediavelmente apagada da sua memória.

Sete cestas repletas de deliciosos alimentos repousavam junto a eles. A menina e o vira-lata não saberiam explicar a origem de toda aquela comida, mas, de uma coisa eles tinham certeza: eles não esqueceriam, nem por um único instante, de agradecer a Deus por aquela maravilhosa noite.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Obesidade Mental - Andrew Oitke



(Esse foi um excelente e esclarecedor e-mail que eu recebi um dia desses)

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»

O problema central está na família e na escola.

«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:

«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.

«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.

Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.

Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.

A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.

Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.

Precisa sobretudo de dieta mental.»

A vil (masculinidade?) de um misógino


Frente a um homem, uma mulher não merece ser hostilizada e tratada como algo abjeto. Um juízo de ponderação atestaria a superioridade intelectiva de uma mulher diante dele. Por que, então, um homem cunha sua malfadada e doentia personalidade de uma forma que, além de degradar a ele próprio, se transmuda no que lhe é subserviente, se revigorando com a dor de quem se propôs a estar ao seu lado?

Por parecer patético, vou me furtar de usar aqueles clichês que, muitas vezes, vociferam aos quatro ventos, como: as mulheres são maravilhosas, fantásticas, deliciosas, saborosoas...(Ah, mas é uma verdade, você não acha?). Nesse sentido, portanto, a misóginia me parece ser um contraponto. Só um burro e idiota trataria mal ao que é bom.

Por desprezar esse tipo de (homem?) e sua incapacitante falta de hombridade, às vezes chego a pensar que esses caras tem uma orientação sexual diferente e ficam do lado do muro onde as mulheres não vão.

Vamos pensar em uma garota de programa, ok? Como qualquer mulher, independente da sua condição, ela tem sentimentos. Considere o fato de que Deus não lhe deu o dom da onisciência e, por isso, é pouco provável, senão impossível, saber as reais motivações que a levaram àquela vida. O ato sexual, nesse contexto, é despido de qualquer sentimento verdadeiro, e o homem, mais do que ninguém, deveria saber disso.

Um julgamento precipitado, externado através de contudentes e dolorosas palavras, as quais intumecem o espririto depois de uma hemórragia moral, bem como as agressões físicas levadas a cabo no erguer do punho, é algo covarde de se fazer a uma mulher, independente de quem ela seja.

Não se desmerece uma mulher pelo simples fato de enxergar nela sua mais latente falta de caráter, substrato de um delírio crônico e contumaz.

Misóginos são monstros e merecem ser exemplarmente punidos para que possa servir de exemplo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Por que sou contra o aborto



Mamãe? Por que você fez isso comigo? Por que você me tirou a possibilidade de, tão somente, existir e me tornar um ser humano? Nunca quis seu amor, até porque ele nunca existiu. Tenha certeza de que eu jamais a obrigaria a nutrir tal sentimento por mim. No entanto, saiba que a recíproca, acaso fosse possível, seria verdadeira. Se você revisse sua fria e desumana posição em relação a mim, gostaria que você me desse a chance de viver. Nada mais! Você está me tirando o que Deus me deu. Isto é certo? Você quebrou o voto de confiança que Seu criador a concedeu. Você me tirou o que nunca foi tirando de você. Como você é indigna, mãe! Deus a escolheu para ser o instrumento de algo tão belo, e você não honrou com esse Seu propósito. Considerando sua deprimente personalidade, é bem provável que eu desça por uma privada imunda de uma clínica clandestina de fundo de quintal, indo parar na minha futura casa: um esgoto incrivelmente sujo e pestilento! A única coisa que eu tenho a desejar a você, se isso vier a acontecer algum dia, é que o remorso tome seu coração e corroa toda a sua alma como o ácido mais corrosivo do mundo. Lamento que você seja assim.


O que um embrião humano, a ponto de sucumbir a um aborto, não seria capaz de dizer a sua genitora? Imagino que não seriam as palavras mais doces do mundo. Pelo menos essa seria a minha postura, acaso minha existência fosse inviabilizada contra a minha vontade. Não seria hipócrita de dizer o contrário. Se tivesse a oportunidade, peticionaria a Deus para que descesse o mais sádico dos castigos sobre aquela pessoa. A latente e necessária capacidade de perdoar, dentro de tal contexto, demandaria forças incrivelmente sobre-humanaas. Sinceramente, desconfio estar aquém de tal capacidade.



Sempre fui a favor da liberdade sexual de uma mulher, independentemente de seu comportamento em relação ao sexo ser promiscuo ou não. Se elas são mais saídinhas ou mais comportadas, é algo que vai dizer respeito tão somente a elas. Uma mulher é livre para fazer sexo com quer que seja, esteja ela bêbada, drogada ou lúcida, desde que partamos do princípio de que ela não foi forçada a usar tais coisas. No entanto, é cediça a opinião de que sexo irresponsável acarreta conseqüências. Uma gestação não programada é uma delas. No entanto, reitero que você perceba que ninguém age conduzido(a) por um engano. É intolerável que uma futura mamãe busque, a todo custo, se despojar dessa sua condição. Afrontar a Deus não me parece ser uma decisão acertada e, muito menos, inteligente. Quando a ira vem do Alto é complicado.

Por fim, não vou me estender no assunto da gestação decorrente de estupro ou abuso sexual em qualquer contexto, bem como uso de células tronco embrionárias, concebidas pelo método da fertilização in vitro, pois acho que, pelo menos nesse tocante, os casos que vierem a acontecer devem ser ponderados com muita cautela. Pelo menos nesse último caso, só quero dizer que um embrião humano jamais perderá essa sua condição sob o argumento de que não ocorreu nidação. Um óvulo fecundado por um espermatozóide está sob tutela divina, e interceder nisso é um ato tão imbecil, desumano e vil, quanto perigoso.

Forte abraço.



sábado, 3 de julho de 2010

Um Profeta (Un Prophète - 2009) - Há recompensa no crime?



Seria aceitável que, moralmente falando, nos permitissemos conduzir a inconsistente e corrosiva degradação de nossa personalidade, nos deixando influenciar a ponto de sermos guiados pelas tenebrosas sendas do crime? Meu Código de Moral e Princípios (não escrito) aponta isso como um atestado de incapacidade, burrice e ingenuidade. Se um criminoso não terminar sua infame existência tombando em uma vala, vai terminar atrás das grades. A estrada de quem coleciona inimigos só se bifurca para estes dois lados. Um atalho implicaria medo e anonimato perpétuos. É bom viver assim? Perguntem a Juan Carlos Ramirez Abadía.

Em nível de Brasil, ainda é possível que possamos ganhar algum dinheiro honestamente e, quem sabe, atingir uma confortável estabilidade financeira. Pode ser que demore um pouco, mas é bem mais interessante. Se não roubamos, matamos ou viciamos quem quer que seja, a forma como nos conduzimos em nossas vidas e gastamos nosso dinheiro só dirá respeito a nós mesmos. Poderemos estufar o peito e dizer: “Sou uma pessoa digna. Não devo nada a ninguém. Tudo o que tenho foi à custa de muito trabalho honesto”. Meu modelo de exemplo é uma pessoa que atenda a esses atributos.

Não vou pormenorizar e, muito menos, classificar modalidades de criminosos, pois esse não é o propósito do presente post. Tudo o que disse até agora foi para servir de introito a um comentário de um filme que acabei de ver. O nome do filme é Um Profeta (Un Prophète – 2009). Dirigida por Jacques Audiard, a película nos conduz ao onírico pesadelo de quem vive atrás das grades. Aucunhada de "Carandirú Francês" a pelicula de Jacques Audiard, ao que me parece, foi injustamente taxada. Hector Babenco, com toda sua prepotência argentina, perto do diretor francês, é menor que uma formiga. No meu ponto de vista, a adaptação do romance de Dráuzio Varela não está à altura do livro. É bem verdade que Carandirú é um filme realista, mas um comparativo seria uma injustição com o filme francês.

Um Profeta tem um argumento bem mais consistente e, via de consequencia, um roteiro bem mais trabalhado, brilhantemente trabalhado pelas mãos do próprio diretor e de Thomas Bidegain. O filme não glamouriza a vida atrás das grades, mas trata, ainda que paradoxalmente, de forma imparcial e explicita, a importância de se seguir regras em um sistema que vive à margem de uma sociedade legalmente constituida, onde, achamos por bem, fechar os olhos.

O que eu posso dizer sobre o filme? Primeiro, uma breve sinopse: El Djebena, cujo papel ficou a cargo do talentoso Tahar Rahim, é um jovem de ascendência árabe que vai cumprir pena em uma penitenciária francesa. Chegando lá, ele logo demonstra sinais de fraqueza, o que o leva a cair nas graças de César Luciani, um máfioso corso interpretado pelo brilhante Niel Arestrup, espécie de manda chuva dentro do presídio. Como uma espécie de pau mandado, ele é contratado para um serviço, onde seu pagamento será, simplemente, a preservação da sua vida. A recusa significa morte. Seguindo-se a isso, toda a linearidade do filme seguirá embasada em como ele se portará diante de outros serviços feitos a mando do mafioso. O final, em que pese o clichê, é enigmático e deixa alguma coisa no ar.

O título do filme, o qual designa o personagem princípal (de ascendênia árabe, não esqueçam), é uma clara metáfora a Maormé, onde o presídio viria a ser a montanha, além de haver, em uma clara alusão ao alcorão, uma entidade que lhe sussurra coisas, como o suposto anjo visto pelo ícone mulçumano, o fazendo crer que tais palavras serviriam para ele, de alguma forma, redimir o mundo. Só faltou El Djabena ser epiléptico. Aí era demais, não era? Mesmo assim, o personagem era chegado em umas guloseimas ilegais, o que pode, de longe, ter algum paralelo com visões suspeitas. Há, leiam o interessante Versos Satânicos, de Salman Rushdie, uma critica sinica e explicita à religião islâmica. Eu o estou lendo e, até onde li, sei que merece uma indicação.

Encerrando, as demais atuações do filme são tão inigualáveis quanto convicentes, além de montagem, ediçao, fotográfia e os demais qualificativos já apontados, simplesmente ótimos. De todos os indicados ao Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro, esse foi o primeiro que eu assisti. Qundo assistir o filme do conterrâneo de Babenco direi se estava à altura ou não de Um Profeta, mas sei que, por ser muito pouco provável, dificilmente as pessoas dirão que ele é melhor.

Ao assistir Um Profeta a gente entende e tem certeza que o bom cinema europeu, de um modo geral, tem uma estética diferenciada, bem longe filmes comérciais americanos, pelo menos em sua grande maioria.